A verdade por trás do naufrágio do Titanic

Quando fabricado, entre os anos 1911 e 1912, o Titanic era dito impossível de afundar. Uma obra-prima de engenharia na época, o navio era projetado para continuar navegando mesmo que 4 de seus 16 compartimentos estanques tivessem problemas e fossem tomados pelo mar. Após colidir com um iceberg, a embarcação, no entanto, teve 6 de seus compartimentos abertos, não pôde resistir e afundou. Teorias foram desenvolvidas para explicar o fato:  o casco do navio estava fragilizado por conta das baixas temperaturas do Atlântico norte? Um submarino alemão atacou o navio? Ou seria a parte submersa do iceberg tão imensa que o navio não pode resistir ao impacto? Após a descoberta do local em que o navio estava submerso, em 1985, diversas expedições foram enviadas ao local para realizar estudos de análise de falhas e, então, tentar obter uma resposta. Esta finalmente veio à tona em 2008, após quase um século de especulações sobre o que teria causado esse tão famoso caso de falha de engenharia.

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Titanic submerso. Créditos: NOAA Oceanic and Atmospheric Research

O Titanic era composto por milhares de chapas de aço de baixo carbono, as quais eram unidas umas às outras por rebites. Na década de 90, acreditava-se, baseando-se em testes Charpy, que o aço falhara por fratura frágil, devido às baixas temperaturas. Testes mais modernos mostraram, no entanto, que à temperatura de 0°C o aço ainda encontrava-se com tenacidade suficiente para que o casco dobrasse com o impacto, e não rompesse fragilmente mediante o mesmo, o que descartou essa primeira hipótese.  Analisou-se, então, a rebitagem do navio. Na parte central do navio, correspondendo a 3/5 do comprimento, foram usadas três fileiras de rebites de aço baixo carbono. Nessa região assumiu-se que as tensões de flexão máximas estavam localizadas. Nos 2/5 restantes, correspondendo à proa (parte dianteira da embarcação) e à popa (parte traseira), foram usadas duas fileiras de rebites de ferro forjado.  Por ironia do destino, foi a popa do navio que chocou-se contra o iceberg,  exatamente onde observou-se que os rebites são de ferro forjado.  Análises desses elementos mostram que eles possuíam uma elevada concentração de escória, três vezes acima do nível considerado ideal. Para piorar, a escória estava concentrada em grandes pedaços, o que fragilizou muito os rebites feitos de ferro forjado, que por si só já seriam mais fracos que os de aço baixo carbono e estavam presentes em menor quantidade nas junções. Simulações por elementos finitos mostram que se usados materiais abaixo dos especificados pelas normas atuais, o carregamento a que os rebites estavam expostos era próximo a seu limite de resistência, comprovando que qualquer fragilização no material seria crítica. Assim, concluiu-se que esta foi a causa da falha da embarcação.

 Quais motivos poderiam ter levado ao uso de um material de baixa qualidade em uma obra tão importante da engenharia? Na época da construção do Titanic, outras duas embarcações gigantes estavam sendo construídas pela mesma empresa, a irlandesa Harland & Wolff. Cada uma das embarcações seria composta por 3 milhões de rebites, o que criou uma demanda pela empresa de cerca de 9 milhões desses componentes. Os fornecedores da Harland & Wolff não podiam suprir tamanha demanda e a carência de rebites teve pico justamente durante a construção do Titanic, o que forçou a companhia a comprar rebites também de pequenos fornecedores da região, pois queriam cumprir os prazos de entrega da embarcação. Como os rebites de aço forjado eram feitos a mão,  necessitavam de muita técnica. O ferro tinha que ser aquecido até um tom exato de vermelho e batido com a combinação certa de marretadas. Como alguns desses fornecedores não eram tão experientes, a qualidade das peças foi comprometida. Além disso, há relatos também de que a empresa quis economizar dinheiro com o material, pois não solicitou aos pequenos fornecedores o melhor material de que dispunham, mas sim um material um pouco pior.  As consequências dessa cadeia de fatores você já conhece. No entanto, ainda que os rebites fossem adicionados em maior quantidade ou fossem de aço, os cientistas não estão certos de que o navio não afundaria, já que de qualquer forma ele sofreu um acidente durante o percurso. O que eles estão certos é de que esse processo seria mais lento, o que permitiria pelo menos que mais pessoas fossem salvas.

Quer saber mais? Confira na íntegra o trabalho dos cientistas responsáveis pela solução do enigma, What Really Sank The Titanic – New Forensic Discoveries (Citadel 2008).

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