#4 Conversa com engenheiro: Matheus Biava (Doris Engenharia)

O quarto entrevistado do quadro Conversa com Engenheiro é Matheus Maragno Biava. Matheus é engenheiro de materiais com mestrado na área de Projetos Mecânicos, concluído em 2008. Atua no desenvolvimento de projetos de óleo e gás na disciplina de tubulação e materiais desde 2008.
Atualmente é Engenheiro de Materiais e Tubulação na Empresa Doris Engenharia e professor das disciplinas de Plataformas Oceânicas e Ciências dos Materiais no curso de Tecnologia de Construção Naval na Universidade do Vale do Itajai (Univali).

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1. O que lhe motivou a trabalhar com Engenharia de Materiais?
A decisão em trabalhar com engenharia de materiais foi há muito tempo, mas a relação química e física de um produto visando a aplicação final foi um dos fatores determinantes para a escolha da engenharia de materiais.

2. Quais os principais conhecimentos que deve ter um engenheiro de materiais para atuar na área de petróleo e gás?
Num contexto geral o engenheiro de materiais precisa conhecer a qualidade do material aplicado em um determinado equipamento mecânico, instrumento de medição, estrutura mecânica, válvula, etc. Já quando o engenheiro atua em uma área mais específica, por exemplo, na área de projetos é fundamental conhecer os princípios da seleção do material que governam o sistema onde o material será aplicado. Já na área de fabricação é fundamental entender o comportamento dos materiais durante e após o processo. A soldagem é o processo de fabricação mais usado na indústria de O&G.

3. Como vocês lidam com os problemas de corrosão existentes nas plataformas de petróleo?
A resistência a corrosão e a resistência mecânica são as propriedades mais analisadas durante o processo de seleção de materiais em uma plataforma de petróleo na fase de projeto. Todos os tipos de processos corrosivos estão presentes em uma plataforma de petróleo.

Resumidamente a mitigação ocorre da seguinte forma. A corrosão interna é gerada pelo petróleo e demais fluidos “carreados” durante a exploração do petróleo. Para os aços carbono a especificação de sobremetral na espessura dos produtos é utilizada ou aplicação de revestimentos a base de resina termofixas (epóxi) ou termoplásticas (PE). Caso este tipo de alternativa não seja adequada a seleção de aços inoxidáveis (316, 316L, UNS 32760, UNS 31803) e ligas de níquel (UNS N06625) é inevitável.

Para a corrosão gerada pelo meio externo, a aplicação de revestimentos de pintura a base de tinta epóxi ou aplicação do termo spray alumínio (TSA) são as especificações mais utilizadas para mitigar a corrosão.

4. Muitos materiais que serão utilizados nas plataformas de petróleo já são especificados por normas. Sendo assim, quais as principais funções/contribuições do engenheiro de materiais para o setor de óleo e gás?
Primeiramente conhecer quais são estas normas e em quais condições elas podem ser utilizadas já é um longo e cuidadoso trabalho a ser realizado nesta área. Acredito que em uma plataforma de petróleo existam milhares de componentes. Além disso, dependendo da especificação os materiais não podem ser fornecidos ou o mercado supridor não pode atender dentro do prazo devido ao tipo de material especificado para fabricação. Neste caso, o engenheiro de materiais através de seu conhecimento técnico é capaz de modificar a especificação do material, garantido o atendimento do produto dentro do prazo e com as especificações requeridas pelo sistema e meio onde o produto será empregado.

Outro ponto é a questão da construtibilidade, onde desde o início da especificação do produto o engenheiro de materiais já é capaz de indicar/acompanhar se o produto especificado será de fácil fabricação impactando assim questões de prazo e custo do produto.

5. Quais as principais tecnologias que o setor de óleo e gás trouxe para a engenharia de materiais?

Desenvolvimento de novos materiais e processo de fabricação. Difícil citar especificamente, pois constantemente existe novos desenvolvimentos ou novas aplicações de materiais ainda não utilizados. Um exemplo de desenvolvimento é a aplicação de materiais em sistemas com o contaminante H2S (sulfeto de hidrogênio) que ainda não estão indicados na NACE/ISO 15156 e os novos procedimentos de soldagem de revestimento de aços carbono.

6. Como o mundo caminha para soluções mais sustentáveis, o uso do petróleo no mundo tende a diminuir. Por outro lado, o Brasil descobriu uma grande quantidade de petróleo na camada de pré-sal, o que o coloca em posição estratégica. Com base nisso, você considera que a indústria petrolífera é promissora?
O petróleo é a base de mais de 5000 mil produtos. Só a cadeia polimérica já é um grande mercado consumidor. A questão de energia alternativa é importante para nosso meio ambiente, mas a redução do uso do petróleo por estas novas fontes de energia não será de maneira tão rápida em função de questões políticas, comerciais e financeiras. Além disso, a capacidade destas novas fontes suprirem toda a energia ocupada pela indústria do petróleo será em no mínimo num médio prazo.
Entretanto, estas novas fontes de energia demandarão novos projetos e consequentemente novos materiais poderão ser desenvolvidos devido aos requisitos destes novos empreendimentos.
O importante desta mudança para um engenheiro de materiais é saber conciliar os requisitos do produto final, propriedades e fabricação. Este triângulo é fundamental para o sucesso de um engenheiro de materiais nesta área.

7. Quais novas tecnologias na área de materiais podemos esperar neste setor? Há ainda bastante a ser desenvolvido pela engenharia de materiais?
Pensando em materiais metálicos, acredito que novas tecnologias estão mais voltadas para a questão de processamento. Neste caso, a parte de desenvolvimento com o ajuste da composição e propriedades dos materiais é uma das áreas que pode se esperar coisas novas. Atualmente, tenho visto grande avanço na questão de simulação de processo e nesse caso uma nova janela para desenvolvimento de materiais pode ser aberta.

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Gostaríamos de agradecer ao Matheus por ter aceito o nosso convite e compartilhado conosco um pouco de seu conhecimento e experiência.

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