Conheça a kriptonita terrestre

Na semana de lançamento do filme Batman vs Superman: A Origem da Justiça no Brasil resolvemos fazer um especial sobre o material mais temido por um de nossos heróis, a Kriptonita.

Você sabia que a Kriptonita realmente existe? Em 2006, no filme “Superman – O Retorno”, sua composição química é detalhada como um composto contendo sódio, lítio, boro, silicato, hidróxidos e flúor. Ela é descrita no rótulo do mineral quando este é roubado de um museu por um inimigo do super-homem. Imaginem a surpresa de uma equipe de cientistas ao analisar a descoberta de novo mineral no ano seguinte e deparar-se com uma composição química semelhante à do filme. O mineralogista responsável, Chris Stanley,  brinca com a situação: “Deveremos ter cuidado com o mineral. Não queremos deixar a Terra sem o seu mais famoso super-herói”.

No entanto, o super-homem e todos os seus fãs podem ficar tranquilos, pois a kriptonita de Stanley não é verde, radioativa, tampouco proveniente de outro planeta, mas sim encontrada em uma mina aqui na Terra mesmo, localizada na Sérvia.  Trata-se de um pó branco e não radioativo, duro e muito granulado, o qual foi chamado de jadarita, já que o mineral não contém nada de criptônio em sua composição, impedindo que tecnicamente possa ser chamado de kriptonita, ou “criptonita”, neste caso. Na realidade outra pequena diferença existe entre o mineral descoberto por Stanley e a kriptonita, a presença de flúor. O elemento não foi detectado na jadarita, o que talvez explique aos fãs a grande diferença de propriedades entre os dois materiais (ufa!).

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Para quem ficou decepcionado com o nome jadarita, ainda há esperança. Sabemos que existem muitos materiais cerâmicos terminados com “ita”, por exemplo mulita, zirconita, cordierita, calcita. Temos um elemento chamado criptônio na tabela períodica. De fato, pode ser que um dia tenhamos uma criptonita. O maior problema é que o criptônio (Kr) é um gás nobre, classe de elementos conhecidos por serem extremamente estáveis e inertes quimicamente, de forma que não seja comum encontrarmos compostos com esses elementos. No entanto, no ano de 2015 os cientistas Zaleski-Ejgierd e Lata conseguiram pela primeira vez prever a possibilidade de formar cristais cerâmicos a partir de criptônio. Para isso, é necessário uma pressão elevadíssima, na faixa de 300 a 500 milhões de atmosferas, mas que já é possível em laboratório apertando as amostras em bigornas de diamante. Outros cientistas já haviam conseguido anteriormente obter compostos de criptônio, no entanto tratavam-se apenas de pequenas moléculas. O diferencial do trabalho de Zaleski-Ejgierd e Lata é que pela primeira vez seria possível obter cristais, uma estrutura maior e mais organizada do que apenas moléculas.  Dentre os óxidos simulados por eles, foi constatado que o monóxido de criptônio (KrO) teria essa capacidade de formar cristais e permanecer estável termodinâmica e cineticamente. No entanto, não foi dessa vez que obtivemos a kriptonita, já que o material provavelmente será chamado de criptóxido quando for sintetizado.

Ao pensarmos que a kriptonita do super-homem é formada dentro de seu planeta natal, Krypton, as pressões elevadíssimas não seriam problema. No entanto aqui na Terra, não é encontrado oxigênio no interior do planeta, muito menos criptônio, então acredita-se que os compostos de criptônio não possam ser encontrados na natureza, podendo ser obtidos apenas através de sínteses em laboratório. Deixemos então a responsabilidade de trazer a criptonita à vida para os próximos cientistas, talvez um de nós estudantes/cientistas de materiais.

Fontes:

Criptonita é descoberta na Terra;

Grupo descobre ‘kriptonita’ em mina sérvia;

Como sintetizar uma “quase” kriptonita;

ZALESKI-EJGIERD, Patryk; ŁATA, Paweł. Krypton oxides under pressure. arXiv preprint arXiv:1510.00255, 2015.

 

 

 

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